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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Saída do roteiro etnográfico no Bom Retiro - 19 set 13, por Samara


Metrô Tiradentes,  7:57 am: manhã chuvosa, me veio à cabeça que o roteiro seria desastroso se São Pedro continuasse se negando a ajudar. Fiquei imaginando de que forma faríamos a saída se a chuva continuasse forte. Sabemos o quanto é complicado andar, perceber e anotar com pés molhados e guarda chuva na mão.
Eles chegaram por volta de 8:30, eram 11 alunos, Alê  e Rosi. Relembramos algumas coisas importantes sobre como é necessário ter concentração, pois as coisas interessantes estão acontecendo a toda hora, anotações, fotos, gravações, etc, mas sempre prestando atenção  para não “ficar para trás”, já que estávamos em grupo. Nesse momento  percebi um dos meninos anotando em seu caderno de campo. Fiquei feliz pelo seu interesse.

Na saída da Praça Coronel Prado algumas pessoas já anotavam em seus caderninhos. Quando entramos na tua três rios, a chuva apertou. Nos refugiamos em baixo de um toldo de uma farmácia quer ficava em frente à entrada lateral da igreja Nossa Senhora Auxiliadora.  Nem todos os estudantes tinham guarda-chuva, então tivemos a ideia de entrar na igreja. Se não encontrássemos alguém para conversar ao menos poderíamos apreciar a arquitetura, ver as “naves” laterais onde tem uma capelinha de santos poloneses e experimentar um pouco do silêncio  do interior da igreja antes de irmos ao Park.

Ao entrarmos fui na secretaria, vi que uma Sra.  Queria falar com “ele”. A secretaria da igreja dizia que “ele”  não estava. A Sra. retrucava falando que “ele” estava lá, que era para chamá-lo. Percebi que seria complicado conversar naquele momento, então me retirei... Percebi um Sr. nos observando, interessados pela presença súbita de tantas pessoas. Fomos falar com ele, que se apresentou como padre da igreja. A explicar o que fazíamos ali logo se interessou e começou a dar explicações sobre a arquitetura da igreja, que ela completaria 100 anos, que o arquiteto era italiano, justamente pela forte presença italiana no bairro. De repente havia uns 4 gravadores ligados. Achei engraçado pela espontaneidade dos estudantes e por me lembrar uma entrevista jornalística (todos com o gravadorzinho esticado próximo ao padre, sérios, prestando atenção).

De fato a fala do padre foi muito proveitosa, pois ele falou de muita coisa sobre o bairro, do trabalho que fazem com os imigrantes (especialmente os indocumentados) junto a um trabalho com a Fundação Dom Bosco. Falou da existência de cortiços locais onde moram bolivianos e paraguaios, principalmente.  Disse que os cortiços são imperceptíveis, pois são pequenas portas, mas quando se entra é um corredor comprido onde vivem dezenas de famílias estrangeiras e em situação precarizada. Falou das missas em polonês aos sábados e em coreano (que já não acontecem mais lá) e em espanhol para os latinos. Também falou que muitos usuários  da igreja estavam de passagem, indo para o trabalho. “ A missa das 6:30 enche”  nos mostrando  a dinâmica da igreja relacionada à do bairro.
Foi interessante também, a presença daquela senhorinha que estava querendo falar com “ele”. Percebi que “ele” era o padre. Ela ia e vinha (pelo menos umas 8 vezes), pedia licença e reclamava que “queria banho”. Estava agitada, batia e pé no chão, dizia “porque eu não gosto de podridão” o padre respondia “ calma já vou te atender” e nos explicava que ela ia todos os dias lá,  que “era sempre assim”.  Num dado momento ele disse “ eu nunca deixei de te atender” parece que ela se acalmou, se sentou e ficou mexendo e cheirando as roupas limpas que estavam dentro de uma sacola plástica.
Como já estávamos atrasados para a visita a associação cultural Qun, nos despedimos rapidamente e agradecemos. Antes de irmos ele ainda comentou sobre as naves ao lado da igreja, onde têm diferentes altares e um pouco mais sobre a arquitetura. Ao sair, desejei “bom banho” para a senhorinha, que me respondeu “ porque o banho é a melhor coisa que  existe”.

Ao sairmos da igreja fiquei feliz pela chuva ter passado. Havia muitos comentários sobre a conversa e de como tinha sido bom entrar na igreja. No caminho para o Park fiquei pensando em dignidade, na dificuldade daquelas pessoas e no trabalho do padre, na  necessidade de jogo de cintura e paciência de ambos os lados pois são muitas demandas, muita carência de um lado, muito compromisso e responsabilidade, de outro.  Pensei que seria interessante uma pesquisa ali e que pela abertura do padre poderemos voltar outras vezes. Sucesso.

Chegamos na associação. A pessoa que cuida de lá é pastor e se chama Park, segundo ele é um dos nomes mais comuns na Coréia, me chamou atenção, porque me parecia mais um nome norte americano.
Ali a primeira coisa que senti foi uma diferença de tempo. Uma calma enorme da parte dele. Ao chegarmos ele nos deixou bem a vontade para sentar, quando todos estávamos acomodados ele disse que iria fazer um café coreano para todos. 15  copinhos de papel (me lembrou o Japão), 15 saquinhos de café coreano, água quente de um aparelho oriental (que serve só para esquentar água) e um ajudante (não sei se era algum parente, mas era um rapaz jovem, com menos de 25 anos) que misturava, milhares de vezes, o pó na água em cada copo. Tomamos o café, Thiago perguntou para @s estudantes sobre a experiência na igreja e parece que a senhorinha chamou a atenção, havia vários comentários “ ela tava enchendo o saco” ; “ a gente que tava atrapalhando o banho dela”...

O Park não começava a conversa, pensei que poderia ser o primeiro choque cultural. Será que ele estava esperando a gente começar? O Thiago também deveria estar apreensivo com o horário, então foi falar com ele. O Park foi para a frente das mesinhas, num pequeno palco, onde tinha uns aparelhos de música, bateria, violão, microfone, etc .

Enfim a abordagem do Park também foi muito interessante. Falou sobre a imigração coreana para SP. Fez uma comparação com a imigração japonesa e chinesa. Falou sobre a predominância das igreja evangélica na comunidade coreana no Brasil.

Park contou um pouco da sua experiência de imigrante, viajou muitas vezes enquanto criança (Alemanha, Tailândia, EUA, Brasil) o quê o fez pensar em abrir um espaço de formação cultural para jovens e adultos. Qun significa “levantar”, a associação foi aberta em 2004 e sua intenção é de  “deixar algo interessante para as próximas gerações através da cultura”. Ali eles oferecem concertos, seminários, reuniões, alugam o local para festas de casamento, etc. Dá para perceber sua preocupação com a linguagem e com a carreira.


Ofereceu, por um ano, cerca de 50 palestras sobre diferentes tipos de profissão. Sua preocupação era em mostrar outras possibilidades de trabalho para além daquelas ligadas à confecção. Também oferecia reforço escolar para os recém chegados da Coréia. Chamou a atenção para as diferenças entre coreanos e brasileiros, que eles são mais tímidos, “coreano tem muita dificuldade, então vocês precisam entender”, “não tem jeito são asiáticos, são coreanos”.  Falou do “zelo” no trabalho “acorda cedo , dorme mais tarde e acho que esse é o segredo da cultura” Falou da guerra da Coreia, em que o país se tornou o mais pobre do mundo e que em 30 anos se tornou o décimo pais mais rico do mundo.

Ele nos convidou para conhecer os andares de cima do espaço. No primeiro andar havia um escritório e computadores para os usuários do lugar, muitos livros coreanos também. No segundo andar tinha uma estrutura para dança, espelhos do chão ao teto e um piso específico para dança. Tiramos algumas fotos, tentamos fazer com que um dos estudantes nos mostrasse seus dotes de dançarino K-pop, mas sem grande êxito. 


Nos despedimos, agradecemos e seguimos para a casa de comida búlgara.

O que me marcou mais foi sua preocupação com o trabalho. Tanto no sentido de exaltar as qualidades  culturais de zelo pelo trabalho, quanto no seu esforço em oferecer  palestras que orientassem a segunda e terceira geração  para as possibilidades de profissão. O fato de ser uma comunidade pequena, em relação aos outros orientais e daquele espaço ter uma relação com a igreja talvez ajude a serem mais “fechados”, pois não é apenas um espaço cultural, é um espaço sustentado pela comunidade evangélica coreana.
Na Bureka, comemos muiiiitas burekas, um tipo de massa folhada com diferentes recheios. Numa mesa dos fundos estavam sentadas duas asiáticas, provavelmente coreanas. Percebi que a dona do estabelecimento conversava com a mãe em búlgaro (provavelmente). Talvez seja uma impressão tola, mas acho que ela falava propositadamente, pois conversava num tom mais alto do que o necessário pela distância entre elas. Fiquei pensando se ela estava fazendo aquilo justamente porque sabia que éramos pessoas querendo conhecer a diversidade cultural do bairro.


Dali fomos pela José paulino em direção ao parque da luz. El@s quiseram entrar numa galeria com dois andares, quiseram subir para ver a José paulino “ de cima”.

No Parque da Luz segui com um grupo, duas meninas e um rapaz. Incentivei-os a entrevistarem qualquer pessoa. Logo avistaram um senhor de chapéu encostado numa cerca. Era aposentado, disse ir lá para “ver as meninas” e passar o tempo, que por volta de 13 hrs ele iria embora. Era de Osaco. Pensei que ele gostava bastante dali para tal deslocamento.  Seguindo a caminhada passamos por umas prostitutas, mas eles não notaram sua presença, talvez porque estivessem simplesmente paradas, chamei atenção deles para elas, as meninas se interessaram em entrevistá-las.

Me sentei com Rosi e Alessandra. Na hora marcada nos encontramos na saída  principal do parque. Três meninas ainda demoravam para chegar, enquanto isso conversamos. Os três que estavam comigo e seguiram sozinhos acabaram entrevistando uma prostituta, na verdade apenas se aproximaram dela, pois ela se sentiu ofendida (segundo eles) e foi embora. O fato dela ter dito, sem rodeios,  que o que a atraia ao parque era dinheiro e que ela era “puta”, chocou  as meninas, o rapaz parece ter tido uma postura  um pouco agressiva (pelo que contaram), o que fez com que a entrevistada fosse embora. As discussões em torno disso renderam. A garota disse que nesses momentos percebiam que elas eram humanas.  Senti  que uma experiência de alteridade tinha acontecido ali. Ela se colocou no lugar da moça, estava chocada com a realidade, não esperava que a mulher fosse se assumir de forma tão clara. O rapaz contou que quando a mulher falou que era “puta” teve uma reação do tipo “que isso, falta de respeito falar que é puta, é prostituta, é uma profissão....” nesse caso o aluno não soube compreender a situação, ele não foi tocado pela situação dela, retrucou,  exigiu respeito com as prostitutas. Mas ela é prostituta, se denominou puta por quê? Tem uma razão por trás das palavras escolhidas... Penso que a vida dela deve ser agressiva também. A outra mocinha só olhava para o chão e balançava a cabeça, pensando na situação.

Pensei em mim com 16 anos, também teria ficado chocada. Hoje minha posição é outra, vi o lado bom, acho que elas são guerreiras, muitas sustentam família com aquele dinheiro, não fazem mal a ninguém, são discriminadas, precarizadas, etc.

Nos reunimos com os estudantes, demos mais algumas instruções sobre o relato de campo que deveriam escrever para apresentar ao Magnani e nos despedimos.

Fui embora com o Thiago até a USP. No caminho fomos conversando sobre tudo. Muita coisa. No caso da prostituta percebemos que uma das mocinhas ficou realmente chocada, e isso foi bom, um choque de realidade, ela se colocou no lugar dela. Ainda discutimos sobre a postura do namorado dela. Acho que podemos trabalhar isso na devolutiva, pois a reação agressiva do rapaz pode ter sido fruto de preconceitos ( que todos nós temos) com base nos estereótipos sobre os “outros”.  Especialmente quando esse “outro” é socialmente oprimido, está no lado frágil das relações de poder, é a mulher, o pobre, o negro, o meliante...
O que a antropologia faz é justamente oferecer ferramentas para quebrar com  isso, a afetação, o conhecimento do outro, a alteridade. Acho que a etnografia , para além do método, é um trabalho sensibilização que requer desenvolver humildade de não se colocar, de não saber nada. Não sei se estou viajando muito...mas acho que isso deve ser colocado para eles. A percepção de que a etnografia (conhecer o outro) não se faz se não houver abertura  e envolvimento. A resistência só faz encaixar qualquer coisa dentro dos nossos antigos padrões. Com isso não se faz etnografia, nem ciência, nem desconstrução, nem pensamento crítico. Acho que na condição de um roteiro etnográfico”, o que podemos passar para eles em três encontros, é essa percepção de necessidade de abertura para construção da crítica. Lógico que é um exercício, mas se eles conseguirem lembrar disso vão ter mais condições de   fazer ligações interessantes, apreender outros conhecimentos, serem mais criativos ...