segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Breve Histórico do Bom Retiro

Thiago Haruo Santos 
thiagosaha@gmail.com


A Chácara Bom Retiro


A história do bairro do Bom Retiro remonta a um passado comum a muitos bairros da região central de São Paulo. Grandes áreas de planície ou de matas tiveram as primeiras ocupações a partir do estabelecimento de grandes chácaras, propriedades privadas isoladas, distantes da pequena mancha urbana que já se expandia a partir da atual Praça da Sé. O Guaré ou Guarepe, nome que denominava a atual área dos bairros da Luz e do Bom Retiro, que significava em tupi justamente "terras, planície ou matas alagadas", foi paulatinamente sendo ocupado por inúmeras chácaras e sítios entre 1828 até 1872. Credita-se ao uso para deleite dessas propriedades o nome do bairro que surgia a partir de 1881, do loteamento das Chácaras de Miguel Carlos e da "Chácara Bom Retiro". Esta ultima pertencia ao empresário Manfredo Meyer, judeu francês, proveniente da Alsácia Lorena. Manfredo, entre muitas atividades empresariais na capital, mantinha na região a atividade de exploração de minérios para produção de material de construção. A atualmente denominada R. do Areal reflete esse uso antigo que o seu proprietário dava a região.


Com o loteamento da Chácara, foi possível a rápida expansão de outras atividades econômicas no bairro. É dessa época a instalação da grande Fábrica Anhaia de tecidos e também da Cervejaria Germânia que existiu na R. dos Italianos. São Paulo crescia em ritmo acelerado por conta do café, e a expansão da malha ferroviária, também resultado direto das necessidades de escoamento desse produto, faziam surgir na cidade novas oportunidades tanto para grandes empresários que procuravam oportunidades para investir, como para comerciantes e trabalhadores que tentavam também aproveitar o bom desempenho econômico da época.


Nesse contexto, surgiu uma nova linha férrea, a "Sorocabana", que teve forte influência na dinâmica econômica do bairro. A sua estação inicial, Júlio Prestes, construída no próprio bairro, criou um grande potencial de intercâmbio para os setores econômicos dessa localidade. É, porém, a linha mais antiga, a criada pelo empresário Barão de Mauá em parceria com a empresa inglesa São Paulo Railway que talvez mais tivesse tido influencia para a história daquela região. A estação da Luz ali construída era um ponto de conexão entre o Porto de Santos e o oeste do Estado, mantendo o bairro ligado aos elementos estratégicos da economia da época, ao mesmo tempo em que facilitava a chegada de novos contingentes de trabalhadores imigrantes.


Nessa época, os imigrantes chegavam ao Porto de Santos e embarcavam nos trens da companhia inglesa rumo à planície. Entre 1882 e 1887 o Bairro do Bom Retiro era o primeiro destino desses homens e mulheres que atravessavam oceanos em busca de seus sonhos: lá funcionou a primeira hospedaria dos imigrantes de São Paulo que logo depois seria transferido para o atual bairro da Mooca.


A presença de imigrantes no Bom Retiro não era uma novidade. É do ultimo quartel do século XIX o grande afluxo de imigrantes, principalmente provenientes de Portugal. Razoavelmente novos no bairro, os imigrantes portugueses passaram a observar nesse mesmo quartel a maciça chegada de italianos. Os novos trabalhadores buscavam as empresas de manufaturas nascentes da capital ou montavam seus negócios próprios, caso das inúmeras oficinas de automóveis que surgiam. A presença dessa colônia era tão forte que se tornou nome de rua: a R. dos Italianos no inicio do século passado era quase toda ocupada por casas ou estabelecimentos de imigrantes ou filhos desses imigrantes italianos. Tendo sido iniciado no final do século XIX, esse fluxo ganhou mesmo força nas primeiras décadas do século passado. Nessas décadas também, em especial as do final da I Guerra, ocorreu a imigração de muitos estrangeiros de origem europeia oriental como os lituanos, poloneses, russos, armênios e gregos. A maior parte desses imigrantes era de origem judaica e as primeiras sinagogas surgiram desse período.


Apesar de esses primeiros europeus fundarem a presença judaica na região, foi só a partir da década de 50, no contexto do pós-guerra, que os judeus tornaram-se um grupo imigratório fortemente identificado com o bairro. Considera-se as décadas entre 1950 a 1970 os anos em que a imigração judaica, principalmente de origem eslava e germânica, predominou no bairro do Bom Retiro. Os judeus encontraram no Bom Retiro o lugar em que podiam manter suas crenças religiosas, longe dos horrores do nazismo e desenvolver suas atividades comerciais, crescendo junto com o bairro. Os judeus são os principais propulsores da referência que se criou em torno do comercio do Bom Retiro, construída nessa época.


Já nos anos 70 e 80, junto as constantes crises econômicas do país, desde os últimos suspiros do regime ditatorial, vieram as dificuldades comerciais e muitos judeus que já haviam prosperado passaram a se deslocar para diversos locais dentro de São Paulo. É desse contexto que o fluxo imigratório de coreanos passa a chamar a atenção no Bairro. Aos poucos, o setor comercial têxtil que antes era identificado com os judeus passou a ser gerenciado por esses imigrantes coreanos. É significativa a mudança e a dinâmica trazida por esse grupo ao setor econômico referido e ao próprio bairro, já que as lojas passaram por uma reconfiguração, passando muitas a acompanhar uma tendência estética mais próxima do mercado internacionalizado. Os coreanos trouxeram outras novidades ao bairro. Além do setor comercial renovado, suas igrejas, restaurantes e escolas expressam qual grupo vem desenvolvendo seus espaços com maior força ali. A corrente imigratória do Bom Retiro continua, e o ultimo grupo a se acrescentar ao vasto contingente de nacionalidades do bairro foram os imigrantes de origem latino-americana, principalmente bolivianos. Esses trabalhadores marcaram sua presença em São Paulo desde a década de 1970, mas a relação mais forte desse grupo com o setor da confecção é mais recente.


Acompanhar a história do Bom Retiro é observar de perto o desenvolvimento de um espaço urbano conjugado com a chegada, estabelecimento e crescimento dos diversos grupos que chegam a esse local. Desde a chegada dos portugueses e italianos, passando pela forte marca deixada pelos judeus, até a vinda dos coreanos e bolivianos o Bom Retiro se configurou como um bairro representativo do que se considera cosmopolita em São Paulo. Mais do que isso, o Bom Retiro foi e continuará sendo o lugar de encontro de diferentes grupos que por meio de trocas e diversos processos de sociabilidade fazem da dinâmica social o lugar por excelência da invenção e desenvolvimento de novas possibilidades e potencialidades.


Referências:


Bom Retiro: Memória Urbana e Patrimônio Cultural: Coletânea de textos para Educação Patrimonial. Simone Scifoni (org.) IPHAN, 2007.


O Bairro do Bom Retiro. Série História dos bairros de São Paulo. Hilário Dertônio. São Paulo, 1971.


Bom Retiro, Luz, Campos Elíseos. Três Bairros, dois distritos, uma cidade. Higor Rafael de Souza Carvalho. FAU-USP, 2007.